sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Nada restará depois das águas...

Raimundo Botelho

Nada restará depois das águas.

São assim as tempestades
que vêm quando menos se espera
ou quando mais se procura.

Nada sobrará desses barulhos
de raios, fogo e trovões aflitos,
corações aos gritos, a treva lá fora.

Nada restará deste silêncio,
além do pingo choroso na torneira.

Pouco a se fazer depois dos tombos:
desentupir os ralos, enterrar os mortos,
secar os panos e fechar as janelas.

Por fim seguir aos trancos e trancos,
até a queda do próximo barranco
— sem contornos, sem encostas.

(Luís Pimentel, no poema Tempestades)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O homem fala...

Margaret Peterson

“O homem fala; o sábio cala; e o tolo discute.”

(Provérbio chinês)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

As nuvens...

Alípio Dutra

As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir da manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!

(Olavo Bilac, no poema Manhã de verão)

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Amar é consequência...

Al Parker

“Amar é consequência de uma atração espiritual acima de qualquer mera paixão humana.”

(Cícero, filósofo antigo romano)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Sua casa deve ser...

George Dunlop Leslie

“Sua casa deve ser o antídoto contra o estresse. Não a causa.”

(Peter Walsh, personal organizer autraliano)

domingo, 12 de janeiro de 2020

Na indolência de um domingo...

Joel Firmino do Amaral

Na indolência de um domingo de verão,
quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,

Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,
envolve o corpo e reprime pensamentos,

Quando a inércia paralisa insetos,
cala pássaros, esconde peixes,

No meio da tarde indiferente,
preguiçosa, frouxa e incandescente,

Um solitário acordeon se faz ouvir.

É gemido desditoso, lamento sofrido.
Queixume penoso.

No ar estagnado do bairro,
por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,

por cima do asfalto amolecido das ruas,
mascarando o borbulhar do riacho,

vibram notas saudosas, melodias sofridas,
canções de outras eras, de outras terras.

Gemidas.

A nostalgia se espalha.
Manta transparente, que envolve.
Aderente.

Libação sonora, suadouro enlutado,
carpindo na tarde.

Canto solitário de imigrante europeu,
Chora a terra, a distância,
a perda do lugar em que nasceu.

(Ladyce West, no poema O som mais triste…)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O sol é grande...

Gustavo Dall'ara

O sol é grande. Ó coisas
Todas vãs, todas mudaves!
(Como esse “mudaves”
Que hoje é “mudáveis”
E já não rima com “aves”.)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino…
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d’água vermelhas de ferrugem;
Saibro cintilante…
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais…
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.

(Manuel Bandeira, no poema Elegia de verão)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Quer ele escolha o imaginário...

Alex Dukal

“Quer ele escolha o imaginário ou o imaginário o escolha, o escritor sempre trabalha contra o real ou de maneira a esquecê-lo.”

(Yves Berger, escritor e editor francês)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

7 de Janeiro - Dia do Leitor

Coles Phillips

“Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que não lê vive só uma.”

(George R. R. Martin)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A matemática, corretamente...

Roberto de Souza

“A matemática, corretamente observada, possui não somente verdade, mas suprema beleza...”

(Bertrand Russell, matemático e filósofo inglês)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alta, esguia, majestosa...

Yara Tupinambá

Alta, esguia, majestosa,
De uma beleza sem par,
Contemplo a esbelta palmeira
Banhada pelo luar.

A seus pés um lago azul,
Onde em calma ela se mira,
Põe na paisagem noturna
Cintilações de safira.

De longe, chega em surdina
A voz rouca das cascatas:
É a sinfonia dos rios
Soluçando serenatas.

Nessa hora em que a noite é um templo,
E o firmamento, um altar,
Sob os círios das estrelas
Em silêncio a vi rezar.

Na linguagem da saudade,
O coração da palmeira,
Pedia as bênçãos do céu
Para a terra brasileira.

(Walter Nieble de Freitas, no poema A palmeira)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Ano novo, vida nova...

Anthony Armstrong

“Ano novo, vida nova”
Frase falsa e descabida
pois cada ano se renova
sem que se renove a vida.

(Bastos Tigre)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O presente não é o passado...

Amadeo Bocchi

“O presente não é o passado em potencial; é o momento de escolha e ação.”

(Simone de Beauvoir)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Dia de Natal

Michael Vassallo
(pintado com a boca)

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Véspera de Natal

Rosa C. Petherick

Feliz de quem – afinal
consegue na humana trilha,
ver que o brilho do Natal
surge da luz da partilha.

(Regina Célia de Andrade)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

São as cestinhas forradas...

Ruth Christensen
(pintado com a boca)

“São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes, os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.”

(Cecília Meireles, em Ilusões do mundo)

domingo, 22 de dezembro de 2019

Verão - Hemisfério Sul

Howard Connolly

Quando você chegar
Quando você chegar
Quando você chegar
Numa nova estação
Te espero no verão

Salve, Salvador...

(Evandro Rodrigues, na música Prefixo de Verão)

Inverno - Hemisfério Norte

F. Hardy

Eu quero colo
Um berço
Um braço quente em torno do meu pescoço
Uma voz que cante baixo
Que pareça querer me fazer chorar
Eu quero um calor no inverno
Um estravio morno da minha consciência
E depois sem som
Um sonho calmo
Um espaço enorme
Como a lua rodando entre as estrelas

(Caio Fernando Abreu, no poema Eu quero colo)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Ao entardecer no mato...

Benedito Calixto

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

(Adélia Prado, no poema Bucólica Nostalgia)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Meu lenço...

Jean Pierre Cassigneul

Meu lenço, na despedida,
tu não viste, em movimento:
lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.

(Carlos Guimarães)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Uma formiguinha atravessa...

Harriet Backer

"Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida…"

(Mário Quintana, em Prosa e verso)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Não sei se a vida é curta...

Sandra Kuch

Não sei se a vida é curta
ou longa para nós,
mas sei que nada
do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
o colo que acolhe,
o braço que envolve,
a palavra que conforta,
o silêncio que respeita,
a alegria que contagia,
a lágrima que corre,
o olhar que acaricia,
o desejo que sacia,
o amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não
seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira,
pura enquanto durar.

(Cora Coralina, no poema Não sei)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O desejo é algo irracional...

Jacques Tange

"O desejo é algo irracional pelo qual nós sempre temos que pagar um preço caro."

(Pedro Almodóvar, cineasta espanhol)