segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ao apagar das luzes...


“Ao apagar das luzes todos se endireitavam e ficavam duros na frente da tela. Eu não. Eu virava a cabeça para ver aparecer o raio de luz que saía pelas janelinhas do quartinho de projeção e percorria o espaço sobre nós até se chocar com a tela e explodir em imagens e sons. E muitas vezes, quando o filme não era interessante de verdade do jeito que eu esperava (muita conversa e pouca ação), eu deixava de ver a tela para contemplar, encantada, aquele feixe mágico de pó luminoso. Eu achava um prodígio que aquele jorro de luz pudesse transportar coisas tão impressionantes como trens perseguidos por índios a cavalo, barcos de piratas em mares de tormenta e dragões verdes exalando fogo por suas sete cabeças. E naquele tempo eu pensava que por ali fluía também a voz, o estampido dos tiros, as canções tão bonitas dos mariachis dos filmes mexicanos. Depois, aprendi que não.”

(Hernán Letelier, no livro A contadora de filmes)

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