terça-feira, 29 de novembro de 2016

A mulher da sombrinha...


“A mulher da sombrinha vermelha tinha na carne uma educação exemplar. Aprendera na cartilha das abelhas, e de um tudo só retirava o mel, eu pensava. Sua boca só existia para o açúcar. O amargo, não soube em que lugar guardava. Duvidava da existência de uma vida inteiramente doce. Ela não sabia ler cartas, mas decifrava outros enigmas: um rosto triste, uma mão vazia, uma sombra no olhar. Fazia a saia dialogar com a blusa, a jarra conversar com as flores. Compreendia a solidão que o macarrão exigia. Dia de macarronada só comia macarronada. De tudo dispensava o supérfluo. Fazia do tomate rosas para decorar o arroz, em dia de festa.”

(Bartolomeu Queirós, no livro Vermelho amargo)

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